sábado, 24 de março de 2018

Fear of the future

Minha cabeça latejava. Os ouvidos zuniam. Era como se eu estivesse em plena guerra e uma bomba houvesse explodido na cabana mais próxima.

Qualquer hipótese seria mais válida do que a que me deparei.

Eu estava numa festa. Chester Bennington berrava a beira de estourar as cordas vocais. O som vinha de direções diferentes, mas não consegui detectar nem uma caixa de som sequer. Na verdade, sua voz era tão consistente que sobressaía a de qualquer pessoa naquele local. A não ser que eles não estivessem falando.

Ei... Espera! Aquela menina estabanada era a J! E aquela com o cabelo vermelho nas pontas só podia ser a G. E o que diabos o R estava fazendo lá também?

Podia ser a minha festa. Mas eu não convidaria tantas pessoas assim. Meus aniversários sempre se resumiram a um bolo com a família, então que comemoração seria merecedora de tal mudança?

Podia ser a festa de alguém e termos amigos em comum. A cidade onde morávamos era um ovo, então não seria surpresa se pessoas de épocas diferentes da minha vida estivessem reunidas num mesmo lugar.

Visualizando ao meu redor, senti uma pontada estranha. Aquele lugar era tão... Familiar. Eu podia chegar a sentir um certo conforto em torno da piscina e do ambiente todo que a envolvia. Eu percebi cautelosamente meus neurônios fazendo sinapses, e no segundo seguinte, eu estava correndo.

O peso de alguns dos olhares caíra sobre mim, empurrei outros corpos, mas nada importava. Eu só precisava correr, desesperadamente. Eu ainda era dona de meu corpo, mas não tinha mais capacidade de controlá-lo. Meus batimentos cardíacos aumentavam gradativamente, e por mais que ordenasse meus pés a pararem, eles não obedeciam. Nem sequer diminuíam a velocidade. Meu coração estava descompassado de tal forma que eu o sentia pulsar insanamente contra o peito, querendo fugir de medo. Medo daquelas pessoas. Medo de mim mesma. E ele estava perdendo as estribeiras, prestes a pular de um precipício sem pensar duas vezes.

Eu queria parar, queria simplesmente me jogar no chão e respirar. Mas ele não me ouvia, porque eu já não tinha forças nem pra emitir um pedido. E quanto mais eu desejava que ele parasse, meu coração aumentava, aumentava, descontroladamente. Eu ia entrar em colapso. Em 3, 2, 1...

- Carol?

Arregalei os olhos.

Eu não estava deitada e enterrada como esperava. Mesmo sem olhar, eu sabia que minhas costas estavam contra a madeira da cama, enquanto o resto do corpo se espatifava pelo tapete do chão.

De alguma forma, eu respirava como um bebê. Calmo e em ritmo coordenado. Meu coração pulsava tranquilo, sem interferências, como se nunca tivesse recebido um pico de adrenalina.

Pensei que estivesse finalmente em casa, mas eu sabia que não. A cômoda na minha frente suportando uma televisão era um alerta de que eu estava longe de escapar do tormento. E eu precisava começar a lidar com o que havia construído.

Então me virei para a porta, e lá estava aquela linha de preocupação na testa. A mesma linha de quando eu cruzava os braços e saía andando na frente. A mesma linha que anunciava o quanto estava sofrendo. A mesma linha que tive que acalmar várias vezes, dizendo que estava tudo bem.

Mas não estava. Não dessa vez.

Voltei a encarar as gavetas, fungando. Tudo estava tão embolado em minha mente que parecia ter desaprendido a falar momentaneamente.

Devido à minha falta de reação, ele se aproximou, sentando-se ao meu lado. Eu sabia que ele seria o primeiro a vir atrás. E ainda assim, a surpresa corroia cada pedacinho da minha consciência.

- O que está acontecendo?

- Você não entende, não é? – perguntei, soltando um sorriso triste. – É um mundo fictício. Todos vocês estão presos nele. No meu mundo. Eu inventei essa casa. Quando leio um livro, eu não consigo idealizar a casa como descrevem. Sem querer, eu sempre acabo voltando à essa casa, ao meu refúgio, à vocês.

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